Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de outubro de 2012

A Vida Pelo Telefone - Walcyr Carrasco

Durante meses,eu e um amigo nos falamos por telefone.Sempre reclamávamos da escassez de encontros pessoais.
-Precisamos nos ver!- ele dizia.
 -Vou arrumar um tempinho!- eu prometia.
Posso ser antiquado,mas acredito que nada substitui o olho no olho.A expressão,o jeito de falar,a gargalhada espontânea,tudo isso dá nova dimensão ao relacionamento.Cumpri minha promessa e fui a seu apartamento.Nos primeiros minutos,falamos da vida como não fazíamos havia bastante tempo.Em seguida,tocou o telefone.
 -Um momento.
 Iniciou-se uma longa discussão sobre quem compraria os ingressos para um espetáculo. Já estava desligando quando se ouviu o celular.Pediu licença no telefone e ele atendeu.Era alguém discutindo com um problema profissional.Depois de duas respostas,meu amigo disse que, como o assunto era complicado, ia terminar um telefonema e ligaria em seguida.Falou rapidamente com a primeira pessoa, desligou e voltou ao celular.Foi a vez do bip,que tocou insistentemente.Pediu desculpas,foi ver a mensagem.Recado urgente para chamar determinada pessoa.
Novamente,trocou mais algumas frases ao celular.Desligou.Pediu-me novas desculpas.Ligou quem o havia bipado.Mais questões de trabalho.Quando anotava alguns detalhes, a linha , digital, anunciou que mais alguém estava querendo ligar.Pediu licença e atendeu a outra linha.Olhou para mim e murmurou desculpas.Combinou rapidamente os detalhes de uma festa-surpresa no fim da semana.Foi fazer um café, com o sem-fio acoplado à orelha.Volta ao celular.Ele tenta botar o pó no coador,com um aparelho em cada orelha e falando nas dois ao mesmo tempo.

 -Não,querida,eu tentei ligar pra saber se você queria ir ao espetáculo com a gente!Mas só deu ocupado...O quê?Não, senhor, não estou falando com o senhor,chefe, puxa vida...Claro que o senhor levou um susto...Eu falando assim,querida....Ha, ha, ha....Pois é,meu amor...Meu amor é ela, chefe....Eu quero que você vá ao show....Eu dou um jeito de terminar o relatório até segunda,chefe...Ah,o senhor também quer ir ao show?Bem vou ver se consigo mais entradas e .... Ah!Certo...Meu bem não fique nervosa não vou trabalhar no final de semana é só um relatório.... Sim mas é claro que vou fazer o melhor chefe...Oh!Meu Deus!!!!
 Corri para ajudar com o café, enquanto ele tentava salvar o emprego e namorada ao mesmo tempo.Quase engoliu o celular.Quando terminou,sentou-se exausto.Nesse segundo, alguém ligou e ele lamentou-se longamente:
-Imagine que minha namorada me pressionou justamente quando falava com meu chefe ao telefone, e ele ouviu tudo pelo jeito....

Olhei meu talão de cheques e disquei para verificar o saldo.Aproveitei para falar com os dois amigos.Quando terminava , ele sentou-se na minha frente, pálido  mas calmo ,com a bandeja e as xícaras.Em dois rápidos chamadas,havia se justificado com ela e se desculpado com ele.Mal pôde perguntar se eu queria açúcar ou adoçante.Entrou um fax.
 -Deixa eu ver o que é, pode ser importante.  -Terminou de ler e alguém ligou para saber se tinha recebido.Em seguida, ligou para confirmar alguma coisa que fora escrita na mensagem.Não pôde terminar porque o celular gritou novamente.Meu estômago roncou de fome.Levantei-me e ele fez sinal pra que eu sentasse. -Já estou terminando. Só preciso mandar um bip. Observei o relógio demoradamente.Aproveitei o intervalo entre o bip e um novo telefonema para dizer,bem depressa: -Preciso ir.Depois te ligo. Sorriu, satisfeito.
 -Então me chame depois.Mas não esqueça,hein?
 -Mando um e-mail e você me responde.Assim o papo fica melhor. Gostou da idéia,sem perceber a ironia.Pediu mais um minutinho no telefone, dizendo que ia me levar até a porta e já voltava.Comentou, já tranqüilo:
 -Nossa, como a gente tem coisas para falar.Você ficou mais de duas horas aqui e nem botamos tudo em dia. Repuxei os lábios, educadamente. Certas pessoas estão grudadas aos telefones, celulares, bips e e-mail.Inventou-se tudo para facilitar a comunicação.Às vezes acredito que, justamente por causa disso, ela anda se tornando cada vez mais difícil....

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A Consulta - Luís Martins



― Sua aparência é saudável, mas as aparências ás vezes enganam. Vamos lá ver: que é que o senhor sente?
― O que eu sinto doutor? Não sei dizer direito. É uma espécie de opressão, de angústia, de ansiedade... ― E o senhor pensa que eu também não sinto? Isto é normal. Normalíssimo. Que mais?
―Bem, doutor. Eu tenho insônias.
―E eu não tenho, por acaso? Pergunte ao seu vizinho se não tem também.
 ―Eu não me dou com meu vizinho.
―É isto: não se dá com seu vizinho. Eu também não me dou com meu. Ninguém se dá com ninguém. Mas não precisa perguntar: eu sei. Seu vizinho não consegue dormir. Ninguém consegue. Isto é normal.
―Mas, Doutor...
―Eu sei: o senhor anda nervoso, excitado, angustiado... Diga-me: não sente medo? Um medo sem causa, sem nenhum motivo aparente, medo de qualquer coisa que o senhor não sabe o que é? ―Realmente... Eu estava com vergonha de dizer, mas, desde que o senhor falou, é verdade: sinto, sim. ―Ótimo! O senhor não tem nada. Eu também sinto. Ó timo torno a dizer. O senhor não tem nada meu amigo. Está inteiramente são, uma vez que sente medo. Se não sentisse, aí sim, precisaríamos procurar as causas dessa anomalia. Talvez fosse grave.
 ―Sabe doutor? Ás vezes tenho a impressão de que estou ficando neurótico.
―Claro que está! E eu não estou? E o seu vizinho não está? E o senhor pensa que vai ficar de fora? Por quê? Mas reflita um pouco, meu caro. O senhor vive, eu vivo, toda agente vive num mundo anormal, sádico, doente, sanguinário, onde o homem é cada vez mais ― e como nunca foi ― o lobo do próprio homem. Um mundo de guerras, de massacres, de hecatombes, alicerçados no ódio, na iniquidade e na violência. Acrescente a tudo isso a poluição atmosférica, a poluição sonora, a poluição moral, a degradação dos costumes, a falências dos serviços públicos, o colapso do trânsito, a morte da urbanidade, da cordialidade, da solidariedade humana. O senhor sente angústia. É natural. O senhor tem medo. É normalíssimo. O senhor tem insônias. Como não tê-las? Meu caro cliente vá tranqüilo: o senhor não tem absolutamente nada. Passe bem. O próximo, por favor?

domingo, 26 de agosto de 2012

Chatear e Encher



"Um amigo meu me ensina a diferença entre “chatear” e “encher”. Chatear é assim: você telefona para um escritório qualquer na cidade.

- Alô! Quer me chamar por favor o Valdemar?

- Aqui não tem nenhum Valdemar.

Daí a alguns minutos você liga de novo:
- O Valdemar, por obséquio.

- Cavalheiro, aqui não trabalha nenhum Valdemar.

- Mas não é do número tal?

- É, mas aqui nunca teve nenhum Valdemar.

Mais cinco minutos, você liga o mesmo número:
- Por favor, o Valdemar já chegou?

- Vê se te manca, palhaço. Já não lhe disse que o diabo desse Valdemar nunca trabalhou aqui?

- Mas ele mesmo me disse que trabalhava aí.

- Não chateia.

Daí a dez minutos, liga de novo.
- Escute uma coisa! O Valdemar não deixou pelo menos um recado?

O outro desta vez esquece a presença da datilógrafa e diz coisas impublicáveis.
Até aqui é chatear. Para encher, espere passar mais dez minutos, faça nova ligação:
- Alô! Quem fala? Quem fala aqui é o Valdemar. Alguém telefonou para mim?

PAULO MENDES CAMPOS